A predadora
Com um golpe cravou-lhe o punhal no coração. Depois, de feição deliciada, observou-lhe o esgar de dor; a boca entreaberta, emudecida por um destino fatal, como que procurando o ar que lhe parecia fugir; os olhos esbogalhadaos, vidrados numa dor dilacerante; os músculos faciais que se contorciam uma última vez. Aguardou pacientemente pelo último fôlego enquanto soltava gemidos de prazer. De um prazer imenso, intenso, denso! Por fim a morte anunciada chegava para reclamar aquele corpo banhado em sangue. Nesse instante deixou-se tombar sobre a inane vítima, rendida que estava a esse prazer orgásmico e macabro que a extasiava.
Agora sim, a noite era finda. O ritual do sexo estava desta forma completo. Era apenas justo que ela tivesse direito ao seu prazer, assim como os anónimos parceiros que conduzia ao mesmo destino tinham o seu. Ela "amava-os", levava-os à loucura, ao êxtase, envolta de uma frieza impossível de imaginar. Apenas a certeza de um orgasmo final, fruto de desejos inanarráveis, lhe transmitia alguma sensação de prazer.
Eles amavam, sentiam prazer pelo contacto físico, sexual. Entretanto, ela apenas os preparava para um prazer maior, derradeiro!
Daí a nada cairia num sono calmo e suave. Quanto a remorsos, os que que tivessem de vir, ficariam para um outro dia, longínquo, até que urgisse um novo e incontrolável desejo por mais um pedaço de vida alheia...

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