quinta-feira, março 17, 2005

Pintando a vontade

Quando Ana entrou na galeria Igor caminhava de um lado para o outro, de semblante carregado. De tal forma que não parecia ter-se apercebido da sua entrada. Ele corria de uma parede à outra, visivelmente perturbado com algo. Foi então que Ana lhe perguntou sobre o que o consumia. Igor, sem abrandar os seus movimentos, logo lhe confessou que não conseguia pintar o que quer que fosse. Não que lhe faltasse a motivação, o interesse, a vontade. Simplesmente não o conseguia fazer. Nisto Ana aproximou-se dele, lançou-lhe os braços na sua direcção e parou-o. Depois, num tom melodioso, suave, de quase encanto, lá lhe foi dizendo que, a menos que empunhasse o pincel e se imobilizasse frente à tela, jamais poderia pintar o que quer que fosse. A angústia que o acometia não era senão um reflexo da sua própria impaciência. Pára, dizia-lhe ela, pára que a seu tempo as cores surgirão. Mas se continuas a correr de parede a parede, prosseguia Ana, as tintas que usas acabarão por secar, assim como a vontade que ainda fervilha em ti...

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