segunda-feira, fevereiro 28, 2005

E a dúvida?

Quis ver do que era feito. Se era como eu. De carne e osso. De sangue e orgãos. Precisava dessa certeza. E assim o fiz. Friamente, olhos nos olhos, traspassei-o com a faca. O seu sangue jorrou, sujando-me. Daí a pouco ele estava morto, mas não a minha dúvida. Só aí percebi: como podia eu encontrar a resposta senão trespassando a faca também em mim mesmo?...

Comentários...

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

"Rapto"

Quero. Quero tudo o que é teu. Quero o teu sangue e a tua alma. A tua vida e alegria. Quero que te dês a mim, que te entregues aos meus prazeres, vontades e desejos. Quero que sejas o que pretendo. Que me dês o que necessito. Livra-te da tua sombra e entrega-a a mim que a minha, perdida por mil mundos, não me chega. Dá-me os teus pensamentos, que nem sequer pretendo usar, mas que por não serem meus os desejo assim. Dá-me porque quero. Porque a minha desculpa reside na tua bondade. Nessa fraqueza que sabes ter. Dá-me porque não me sabes dizer que não.
Sim, quero tudo o que é teu. Quero que te entregues a mim, que te livres da tua carne, da tua cara, e te tornes na minha sombra. Apenas porque sim, porque sou assim! Porque do todo de ti se faz um pouco de mim. Porque quero... porque deixas... porque desejas!

Comentários...

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Pós-Urnas

O povo decidiu, está decidido. Mas lembrem-se os eleitos das razões que levaram grande parte dos eleitores a votar neles. Mais do que a confiança, foi a insatisfação que os catapultou para o poder.
Quanto à maioria, não se esqueçam, ela também se reflecte na responsabilidade, ou irresponsabilidade, do governo eleito. A equação é simples... mais votos = mais responsabilidade. Acabou-se a desculpa de uma oposição que impede a boa governação de um País.
Por cá espero pelos resultados....

Comentários...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os "Istas"

São quem tudo sabe. Não sendo tribo, espalham-se por todo o mundo, unidos por uma dúbia forma de estar e pensar. É deles a verdade suprema das coisas. As suas teorias, elaboradas em cantos solitários, fruto de auto-marginalizações, são de bradar à angústia. Ouvi-los faz sobressair sentimentos ambíguos em mim. Por um lado divertem-me com o absurdo dos seus radicalismos. Por outro lado deixam-me triste e apreensivo pela senilidade que aparentam. E o pior é que estão por toda a parte, espalhando as suas palavras por todos os ouvidos. Ouvir, aguentar e conviver com essa gente dá um novo sentido à palavra mártir. Mas, enfim, há que entender a diversidade. É dela que brota a cultura e floresce o conhecimento. Se os “Istas” não o percebem é lá com eles. Quem sabe se um dia não lhes cai o I da ignorância que lhes tolda a compreensão!

Comentários...

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Dias de(na)morados

Amaram-se como nunca. Este era, afinal, o primeiro dia dos namorados que passavam juntos. Queriam aproveitá-lo, saboreá-lo, guardá-lo naquele cantinho especial da memória. E assim lá foram atrasando o tempo. Primeiro por mais uns minutos, depois por outra hora.
Os beijos sucediam-se, os abraços intensificavam-se, os suspiros subiam de tom. Por fim o momento chegava. E sem trocar palavras vestiram-se. Os olhares que se cruzavam diziam tudo. Entendiam-se assim as palavras que nenhum queria dizer ou ouvir.
Já na rua, frente a essa pensão barata, ele ofereceu-lhe uma rosa que colhera mesmo ali, diante dela, num desses canteiros que dão cor a estas terras cinzentas. Ela sorriu, mostrou-se agradada e beijou-o uma vez mais.
«Amo-te», disseram um ao outro antes de se afastarem em direcção às suas vidas. Ele, direito à solidão que o acolhia num apartamento qualquer, foi o primeiro a desaparecer. Ela, de feição diferente, dessas de esposa e mãe dedicada, foi logo a seguir, de encontro a uma família que não cabia naquele momento.
Para trás ficava a rosa, perdida na calçada, pingando gotas de uma chuva que caía só sobre eles.

Comentários...

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

(com)passos

Passo após passo, numa toada lenta, o velho afastou-se para nunca mais ser visto. Mas ainda hoje consigo ouvir o eco dos seus arrastados passos. Como se ele ainda ali estivesse, naquele mesmo sítio onde o vi, no ontem de um outro passado. Ouço as folhas secas que se rasgam sobre os seus pesados pés; a terra que se espalha ao ritmo do seu andamento; a respiração cansada e ofegante de uma vida gasta.
Foi! Foi há muito. Mas ainda hoje guardo as palavras que mantêm esse eco vivo. Sabes, disse-me ele, em breve morrerei mas és tu quem terá de viver com isso. Só depois se afastou, levando consigo, para sempre, a imagem. Para trás, e até que chegue o meu ontem num passado diferente, deixou o eco da sua caminhada. E assim vou vivendo, entre ecos e dizeres...

Comentários...

domingo, fevereiro 06, 2005

Explicação

Peço desculpa pela ausência de posts mas o tempo parece ser curto. Voltarei à carga em breve...

Comentários...

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Ego

De imediato procurou corrigir o seu erro. Mas ele não lhe aceitou as desculpas. Num tom seco e mal medido atirou-lhe as intenções para um fundo lamacento. Talvez esperasse vê-la gatinhar por entre o sujo que lhes segura os pés. Sim, talvez! Um sincero desculpar não lhe bastava. Precisava de a ver deitada sobre a lama, chapinhando nesse lodo de humilhação, como se esse fosse castigo obrigatório. Um mero pedido de desculpas não o faria sentir-se melhor.
Ela olhou-o, atónita, ciente do último olhar que trocavam e partiu, deixando-lhe a ele novas culpas.
E pensavam que se conheciam...

Comentários...

on-line