quinta-feira, dezembro 02, 2004

Introspecção

Porque me desenham as asas quando eu não voo? Porque me pintam a cara se eu não tenho um rosto? Porque me fazem de uma beleza inefável se tantas e tantas vezes não sou mais do que um monstro que deambula por aí?
Não julguem que o meu lugar é no céu. Nem sei se por lá há vida. Eu vivo mesmo por aqui, entre vós, saltando de palavra em palavra, de gesto em gesto, de sentido em sentido. Que mais posso eu fazer? Não sou o anjo que vocês pintam. Sou um parasita que alimentam. Vivo das vossas emoções. Alimento-me dos vossos corações. Por isso não tenho um rosto, tenho-os a todos. E ainda assim nenhum me pertence! São instantes que passam. Cóleras que não se perdem, sorrisos que não se esquecem. Como poderia eu, tão mais humano do que a carne alguma vez será, usufruir da beleza que me incutem? Não. Não sou merecedor e também não o desejo! Sou apenas isto que vos sussurro. Um momento, os momentos! Sou a delícia e a agrura, o desejo e o receio! Mais do que um anjo sou a hipnose da vida.
Querem-me pintar? Querem-me ter numa folha de papel? Exposto numa tela reluzente? Pois bem. Então pintem-se a vós mesmos. Olhem os vossos olhos, para lá do espelho que vos reflecte, e pintem-se. Talvez aí percebam…

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