terça-feira, dezembro 07, 2004

Há-de sempre chover...

Lá fora não chove mas a promessa mantém-se no ar. As nuvens carregadas tornam-na um tudo nada mais evidente. Eva hesita. Não sabe se deva sair ou não. Dá um passo em frente e depois, imediatamente depois, recua-o. Fá-lo uma e mais vezes. Pé em frente e passo atrás, pé em frente, passo atrás e por aí adiante. Entretanto as nuvens adensam-se, tornam-se gigantes. Pintadas de um cinzento-escuro, ou talvez seja um negro claro, amontoam-se sobre si mesmas. A revolta está eminente e Eva não se decide. Continua ali, num vai que não vai, num passo que não anda, em hesitações de pessoa confusa. Ela lá sabe, ou não, as linhas com que se cose a sua indecisão.
Liberta-se um trovão. Do alto, onde as nuvens se digladiam, deixa-se cair num estridente relampejar. É o pronuncio do inevitável, o cumprir de uma promessa que sempre esteve de pé. E Eva, o que faz? Olha para o céu escuro, como se a noite tivesse vindo mais cedo, de onde vê a chuva cair. A sua expressão é de surpresa. De todo em todo se apercebera da inevitabilidade do que se avizinhava. Tanto pior para ela. Agora só lhe resta a decisão que evitou até aqui. Passo em frente ou pé atrás? Que se dane, parece pensar, há-de ser o passo adiante o que toma. Então, e enquanto o cair da chuva se intensifica, Eva dá um passo em frente que já não recua. Depois dá outro e mais outro, até que, por força dessa chuva esmagadora, os passos se apressam em tom de corrida. E é vê-la por ali, procurando desesperadamente escapar à chuva, até se perder de vista por entre a espessa cortina de água que já se formou. Eva desapareceu, por ora, mas não a chuva, sempre fiel às suas promessas.

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