terça-feira, novembro 30, 2004

Ruptura

Serei um proscrito se fugir, se não me tornar um mártir, se não cair. Serei persona non grata se o meu sangue não for derramado em nome de um credo que não sei quem forjou. Que seja! Façam cair a vossa ignomínia sobre mim. Não a vou sentir porque não a vou reconhecer.
Não cairei com um mártir porque não há coisa assim. Esse é um romantismo bacoco com o qual não pactuarei. E se me disserem que sou proscrito por fugir, pois bem, assim serei. Saibam apenas, mas saibam-no bem, que os vossos credos não precipitarão o meu fim.

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segunda-feira, novembro 29, 2004

Um segundo a mais

De que me vale gritar agora por socorro? À minha volta tudo é mar. Um azul infindável que me cala os gritos. Não! Agora é tarde. Em breve estarei no fundo deste oceano...

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quinta-feira, novembro 25, 2004

ó da esperança!



O desencanto é uma folha caída. E mais ainda, é uma floresta inteira de árvores despidas. É a sombra dos sonhos de uma gente esquecida. O desencanto é uma palavra ferida, um quadro sem cor. É isso que ele é, uma vontade empedernida!
O desencanto são dias sem fim. São mentiras crueis que se espalham por aí. O desencanto, meus amigos, são flores sem cheiro que crescem em qualquer jardim.

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quarta-feira, novembro 24, 2004

A explosão que se avizinha

Um dia ainda me hei-de virar do avesso. Ficarei irreconhecível. As pessoas irão odiar. Irão sentir nojo. Mas não me importo. Com a pele por dentro e a carne de fora passar-me-ei entre eles e elas. No chão deixarei pisadas de sangue. Nos olhares, visão do concrecto, do real. Também sou isto, também sou este.
Não precisam aceitar,
nem tão pouco entender.
Não pecisam de gostar,
mas precisam de saber.
Um dia, já o disse, vou-me virar do avesso. Quem não quiser olhar que feche os olhos. Quem não me quiser cruzar que não passe por mim. Mas a carne que sou, mostrá-la-ei quando quiser porque há coisas e fleumas que não se podem suster para sempre...

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segunda-feira, novembro 22, 2004

Cinco (5) coisas que me desagradam

  1. Bombeiros pirómanos : por representarem um papel diametralmente oposto ao da realidade. É vê-los precipitarem-se sobre os fogos, quais herois saídos de um conto de fadas, quando nos bolsos carregam os fósforos que despoletaram os incêndios.
  2. Burros com palas : não tanto (ou nada mesmo) pelos burros em si, pois cada um é como cada qual, mas mais pelas palas. Irrita-me essa forma estúpida, insensata e despótica de impedir ao burro o campo de visão a que também ele tem direito.
  3. Convenções dos Elvis Presley : porque é ridículo ver tantas pessoas juntas fingindo serem algo que não são, não foram e nunca serão, numa aparente e desesperada tentativa de camuflarem um vazio de ideias e personalidades difíceis de esconderem. Mais a mais, ainda se orgulham...
  4. Martelos pneumáticos : porque fazem um barulho desgraçado, insuportável e odioso. E porque a única funçaõ a que se destinam é a de partirem e destruirem tudo aquilo em que toquem.
  5. Virgem Maria : não tanto por ela, que a cada Maria a sua desculpa. É a crença generalizada num fenómeno tão impossivel quanto o de uma mãe biológica poder ser virgem que mais me irrita. Imagine-se, se a moda pega, a quantidade de filhos do espírito santo que estarão para vir.

Atenciosamente,

eL P

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conjecturas sem tempo

Faz tempo, ou vai-se fazendo, que não escrevo nada. E a culpa é dele, do tempo. Ou da falta que me tem feito. Há dias que parecem mais curtos. Minutos que passam mais depressa. Segundos que praticamente não existem. É um ar que se dá. Um relâmpago que desce trovejando por aí e que corta a verdade ao meio. De um lado fica o tempo como ele é e do outro a percepção que se tem dele. Foi precisamente neste último lado que fiquei preso, agarrado a uma sensação errada. A uma percepção distorcida de algo que por si só não garante uma verdade universal mas apenas e só uma necessidade humana. O irónico, o acaso que desenha sorrisos amarelos nos nossos rostos, é que não se trata de um acontecimento isolado. Não digo com isto que seja frequente. Apenas que se tem tornado cada vez menos raro. Ao porquê inerente não sei responder. Ou talvez até saiba mas prefira não o fazer. Há coisas que ficam melhor, ou que parecem menos más, quando aparentemente ignoradas. Quando propositadamente negligenciadas. Entretanto tempo e percepção reunificaram-se uma vez mais. É óbvio não é? De outra forma continuaria sem escrever. Escravo de um momento desprovido dos seus segundos, ferido nos seus minutos, deslocado do seu próprio tempo. É! A culpa é sempre do tempo. Por ser umas vezes curto e outras demasiado longo. Mas mais do que isso eu culpo o tempo por depender tanto dele!

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terça-feira, novembro 16, 2004

outros silêncios


Calem-se as vozes que cantam agudos
pois essas vozes, que ecoam do fundo,
são vozes diferentes das que fizeram o mundo.
E calem-se as vozes que gritam mais graves
pois essas vozes, que dançam no ar,
são vozes diferentes das que deviam gritar.
Mas ouçam todos estes sons mudos
pois estes sons, que andam na terra,
são sons reais que a voz não berra.
Então, ouçam os sons e sem entraves
pois estes sons, que nadam no mar,
são sons reais que querem voar


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sexta-feira, novembro 12, 2004

Prognóstico reservado...


Este planeta foi ao médico. O diagnóstico recebê-lo-á dentro em breve. Mas a julgar pelas expressões do senhor doutor, a coisa não parece boa. Há muito que se tem vindo a queixar de dores. Em toda a parte há algo que lhe dói. O médico, que é o de família, tem sido sempre sincero com ele. Suspeita de um cancro que se pode ter vindo a alastrar. Não é coisa fácil de dizer. Especialmente quando este médico assistiu ao parto do planeta adoentado. Mas há que ter esperança, lá vai dizendo o experiente doutor. Pode ser que não seja nada de grave. Mas se houver este planeta deve preparar-se para o pior. Os tratamentos serão dolorosos mas, enfim, poderão acabar com esse mal que se alastra dentro dele. É uma questão de esperar pelo diagnóstico exacto. Até lá deve manter uma vida saudável, adianta-lhe o médico. Um terramoto aqui, um vulcão ali, enfim, as curriqueirices do costume. Depois se verá...

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terça-feira, novembro 09, 2004

na neblina das certezas



Não vejo razão que me assegure as palavras. É certo que a procuro! Porém, quanto mais trilhos desbravo, mais longe me parece. Mas ela anda por aí. Julgo! E parece esconder-se ali, atrás daquela árvore que roça os céus. Ou ali, escondida para além desses arbustos cujas raízes se afundam até ao fim da terra. Uma vez por outra ouço-a em voos que rasgam o céu. Mas nunca chego a tempo de a ver. Fugidia, veloz, esquiva e o mais que se pense, ela escapa sem beliscos. Mas ela anda por aí. Algures. À espreita. Movendo-se sorrateiramente por entre este nevoeiro que sufoca a vista.Aguardando, quiçá, que as areias movediças do seu quintal me engulam. Suspeito no entanto que alguma vez me aconteça cair nessas terras sem firmeza. É que esses são domínios da razão, a mesma que não vejo assegurar-me as palavras. A tal que procuro e da qual me pareço afastar passo após passo. Essa que anda por aí, correndo e voando como um fantasma, cercada de uma neblina imensa que começa nos confins da terra e se eleva até onde a vista não chega. Essa mesma!


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segunda-feira, novembro 08, 2004

Darfur - a vergonha de deixar morrer...

A memória é curta. A vergonha é imensa. Darfur esquece-se. Parece melhor assim. Dá-se uma notícia hoje, outra dentro de duas semanas. Nas televisões 15 a 30 segundos bastam. Não se pode mostrar muito. Não se deve! Mostrar o que se passa em Darfur, Sudão, faria com que as questões se amontoassem. A indignação viria a seguir.
Porque não fazem nada? NATO? Os cínicos e hipócritas governantes americanos? Onde estão eles? Onde está o tão propalado interesse na dignidade humana? Não está. É que em Darfur, o único negro que se encontra é o da cor da pele dos seus habitantes (já para não falar no futuro de cada um deles). Por isso não interessa que o governo islâmico, cujo lema é "A vitória é nossa" (Al-Nadir Nila), nada faça para parar a carnificina que se vive naquela região do país. No fundo interessa-lhes (ao governo sudanês) que assim seja. Estão só a pôr em prática o que o seu Hino Nacional apregoa, "Nós somos o exército de deus e da nossa terra" (Nahnu Djundulla Djundulwatan). É que bem vistas as coisas os alvos das milícias árabes janjaweed são cristãos e animistas. Mas, claro está, o governo de Cartum nega que tenham algo a ver com os ataques milicianos. Na verdade até estão a tentar controlá-los!!!!
Mas ninguém faz nada a nivel internacional. Dizem-se (os governos ocidentais) estarem de pés e mãos atadas por se tratar de um governo legitimado por escrutínio (indepentemente das suspeitas de fraude eleitoral que rodearam o processo que conduziu Omar Hasan Ahmad al-Bashir ao poder). O que quer isto dizer? Aparentemente que um governo eleito por sufrágio pode fazer o que bem lhe entender com as minorias. Claro que, cá para nós, sabemos bem do que se trata.
Entretanto, enquanto o mundo político ocidental se está puramente borrifando para a questão de Darfur, ficam aqui os números que marcama crise sudanesa:

cerca 70,000 pessoas morreramdesde o início do conflito
aproximadamente 1,7 milhões de pessoas abandonaram as suas casas
20,000 refugiaram-se no país vizinho do Chade
sensivelmente 160,000 refugiados não recebem ajuda humanitária por não haver segurança

Estes são apenas alguns números avançados pela ONU que já classificou a situação do Darfur como a pior crise humanitária do mundo. Mas, é claro, por si só isso não chega. Deveria ser a pior crise humanitária do mundo num país riquíssimo em petróleo para justificar a intervenção dos ditos países civilizados.

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sexta-feira, novembro 05, 2004

Displicência

Somos dois cá dentro.
Cada qual lutando por um pedaço de mim.
Não sei quem ganha nem sei quem perde.
Só sei quem sente!
Sei quem se arrasta pelo chão
gritando como um demente,
que a verdade podia não ser assim!
Mas somos dois cá dentro.
Cada qual enfraquecendo o mesmo coração.
Não sei quem mata nem sei quem morre.
Só sei quem sente!
Sei quem se arrasta à luz da lua
gritando a esta sombra de gente,
que na mentira também há razão!

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quinta-feira, novembro 04, 2004

Ladrido do dia

Não basta a auréola para se ser santo!

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Desabafo!

Sabem, às vezes também choro!
Pé ante pé, dissimulando uma cobarde fuga, arrasto-me para um esconderijo qualquer. Aí, num isolamento precário, permito às lágrimas a liberdade que reclamavam. E choro! Não me queixo nem me vitimo, apenas choro.
Entre soluços meio emudecidos, protegido por sombras que me ocultam do mundo, choro as lágrimas que têm de ser, que devem escorrer. Solto-as sem as mostrar a quem nem a alguém. Solto-as de mim e para ninguém.
Sabem, às vezes o mundo vê-se melhor através das lágrimas!
Protegido de quês e porquês, de opiniões e falsas emoções, sinto cada lágrima que escorre. Sei porque o fazem e o que querem. Consigo-as ouvir no silêncio do meu refúgio. Não são culpas nem desculpas. São consciências que um dia quiseram sentir o ar que me toca a pele.
Mas sabem, sorrio sempre depois de chorar!...

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quarta-feira, novembro 03, 2004

"Submissão"

Não haverá forma de acabar com isto?

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terça-feira, novembro 02, 2004

O eterno KO

A matança continua. Que mais posso eu dizer!? Que hei-de eu pensar quando vou a conduzir numa estrada qualquer e me deparo com situações deste género? E depois há todo aquele emaranhar de gente sedenta de um pouco de sangue. Verdadeiros abutres à espera que se revele a carcaça de alguém mais incauto. A cada dia que passa, e quanto mais me aventuro por essas estradas, mais me apercebo da nossa estupidez. E nem as coimas cada vez mais pesadas (com as quais devo dizer que concordo plenamente) parecem funcionar como elemento dissuasor de determinadas condutas de risco. E porquê? Porque todos julgam ser ases do volante. Quando conduzem devem pensar que as estradas são autódromos e os condutores Schumachers. Depois, inevitavelmente depois, vêm as lágrimas que lamentam o sucedido. Sim, porque há sempre alguém que chorará para sempre esses segundos trágicos.



Mas esta é a nossa cultura, quer a aceitemos ou não. E isso vê-se bem pelas ordes de gente que logo se juntam nos locais de sinistro. Para quê? Para aguardarem pelo momento mórbido em que o corpo de alguém seja desencarcerado. Para ouvirem os gritos dolorosos de alguém que sobreviveu e assim congratularem-se, mesmo que em surdina, por não serem eles/as naquela situação. Infelizmente quase ninguém retira as conclusões óbvias desses momentos. Pelo contrário. Muitos desses "abutres" têm mesmo a ousadia de pensar que essas são situações que só poderiam acontecer aos outros, ignorando que os outros também pensavam assim. Nós somos os outros! Seja como for, talvez esteja na altura de mudar os nossos comportamentos.

Custar-nos-á assim tanto mudar a nossa forma de estar? Será respeitar as regras de trânsito motivo de vergonha? Será respeitar a nossa vida e a dos outros motivo menor de atenção?
Enfim...

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