Não é o sono, sou eu...
Noite escura e profunda. A luz foi-se numa quebra súbita e inesperada. Eu dou voltas e mais voltas no sofá. O sono não vem, tardio como noutras noites. Desconjuro-o por isso. É mais fácil do que admitir uma perturbação qualquer, dessas que estão tão em voga. Então levanto-me e dirigo-me para a janela. Não consigo ver nada, nem mesmo a lua. As nuvens encobrem-na, talvez a queiram roubar. E também não vejo o vento que sopra, mas sempre o ouço. Sempre percebo o seu brando silvo ecoando pela rua. Sobrevem-me um pensamento: como não ter sono numa noite assim? Talvez seja mesmo uma perturbação qualquer, mas apenas talvez!
Volto para o sofá onde me deito uma vez mais. Foi assim ontem, anteontem, e nos antes que já se foram. Sei que o sono acabará por surgir, é apenas uma questão de tempo. Até lá deixo que os mais variados pensamentos me assaltem. Uma vezes é o futebol, outras a política. Certas noites são confusos, como se censurados pela pequena porém activa e hipócrita censura que ainda vou alimentando. E aqui estou, de pensamentos deslavados, turvos e desconexos. Forçam-me a sentar-me de novo. Impelem os meus olhos a uma procura incessante, ainda que infrutífera, num frenético alerta. As mãos suam e o coração bate mais intensamente. Depois provocam um frio que me percorre a espinha. Juro ter visto algo, como uma súbita aparição, um relampejo de luz fusca em movimento tosco. O medo assalta-me. A culpa é desses pensamentos fantasmagóricos, vindos de nada e apoiados por razão nenhuma.
Engulo em seco. Ainda não há luz. Por isso arrasto os pés muito lentamente até ao quarto. Deixo uma das mãos guiar-me pela lisura da parede. Finalmente deito-me na minha cama onde procuro o aconchego da minha parceira. Ela dorme profunda e serenamente. Agarro-me a ela, abraço-a como se procurasse protecção. E assim, abraçada pela minha insana percepção, ela dorme como dormem as princesas, ignorando que me acalma o espírito e me devolve a razão. Agora sei que daqui a pouco o sono virá.

1 Ditos e desditos:
sabe que pra mim, a pior hora do dia é a de dormir?! tanto que eu sempre durmo mto tarde, fico adiando esse momento o máximo que posso... só me deito qdo já estou dormindo em pé, com os olhos fechando...
não sei, ás vezes eu acho que tenho medo de mim mesma, de ficar sozinha pensando no escuro, deitada, com as coisas vagando...
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