quarta-feira, outubro 27, 2004

Lusitanismos

Nascemos da persistencia mas vivemos em constantes suspiros. Desbravámos presente e futuro pela vontade e insistência mas acomodamo-nos a glórias passadas, a momentos de saudosismo. Assim somos, eternos sonhadores, poetas ansiando um futuro que já foi presente mas que há muito passou. De pena na mão, em cada um desses que escreve, vão-se debitando as palavras que a bem e a mal, pelo sim e pelo não, descrevem este povo que é bravo e manso, empreendedor e acomodado, sonhador e desesperado. Entretanto as lágrimas continuam a chover e os sorrisos a raiar. Os desejos não cessam de medrar nem os medos de crescer. E de mar em mar, de terra em terra, lá vai este povo andando e navegando, de rumo virado para os sonhos de sempre. Talvez que fosse hora de sonhar com o que nunca houve...

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terça-feira, outubro 26, 2004

Os lacaios de Sam

Não sei quanto a vocês mas eu começo a ficar farto desta americamania que os media nos tentam incutir. Para onde quer que olhe lá estão as malditas das eleições norte-americanas. Não posso sequer largar um bocejo, ou algo menos prosaico, sem que ouça falar de Bush e Kerry. A coisa atingiu uma insuportabilidade tal que eu já nem sei se deva continuar a falar e a escrever em português ou se, pelo contrário, deverei adoptar a lingua inglesa, na vertente americanada claro está. Parece-me uma atitude de puro serventilismo esta que os nossos media adoptaram. Tanto mais que, vendo bem as coisas, nem para as Europeias se deram a este trabalho. E agora pergunto-me eu: onde vivemos nós?
Chegámos ao ponto em que uma determinada televisão (que curiosamente se intitula de serviço público) dedica uma semana inteira às malditas eleições yankees. Não interessa o cáos político, social e económico em que estamos mergulhados. O que interessa são as eleições para o rei do mundo! Chega. De uma vez por todas, chega. Querem dar conta do que se passa nesse país, pois bem, façam-no, mas não às custas da nossa identidade. E se não se revêm enquanto europeus guardem pelo menos a dignidade e identidade nacional
Acho que a cultura McDonalds, Coca-Cola e Hollywoodesca já é mais do que suficiente, não queiram também agora impingir-nos um pseudo-interesse na vida política dos EUA.
Irra! A paciência tem limites.

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segunda-feira, outubro 25, 2004

Considerações sobre uma certa armadilha

São as palavras que mais dão conta dos sonhos. São elas que se atiram contra o mundo e ecoam nas entranhas destes desgovernos. Mas não passam disso mesmo, de palavras ditas contra ao vento. Se há olhos que as leiam, ou ouvidos que as ouçam, é matéria que desconheço. Seja como for elas, as palavras, andam por aí, saltando de banco em banco, como um saltimbanco, procurando poiso onde se façam sentir, onde se sintam existir.

Os sonhos sempre foram e sempre serão, porquanto vivem da nossa existência. Alimentam-se de nós, da nossa vida, dessa existência errante, mas que não errada. Caminham com os nossos passos, trilham dos nossos rumos, apenas falam de forma diferente. Fazem-se ouvir e sentir quando do mundo não há senão a certeza física da sua existência.

Em certas manhãs os ditos da alma mantém-se presentes. A mente não os calou, não largou sobre eles a asa da censura e permitiu-lhes a luz do dia. É como se lhes desse a oportunidade de experimentarem a vida real. Mas mais do que isso haverá um motivo forte para essa não censura. Quase sempre é um sadismo inequívoco, um prazer odioso em contrapor a vontade à condição do momento. Olha, parece gritar a mente, olha o que tu desejas e vê o que tu és, percebe o que tu tens.

O corpo é quem mais se ressente dessa guerra entre alma e mente. É ele que se contorce de dor. É nele que a ira da angústia descarrega a sua frustração. Daí essa sensação inefável e indescritível que nos faz tremer e que nos baqueia as palavras.

Vem então a vontade de soltar tudo. Há que exorcizar esses demónios que aterrorizam o ser. É a altura das palavras, o momento da sua aparição. Elas trarão o alívio, ou assim se julga. E sem mais demoras, que o tempo é sempre de urgências, atiram-se as palavras contra o vento, quase sempre sem as medir, sempre por pesar. Ele encarregar-se-á de as levar. O resto, já se sabe, cabe aos ouvidos de quem saiba ouvir e aos olhos de quem saiba ver.

Assim se vão medindo os sonhos que ainda se recordam. Assim se vai pesando a debilidade de um corpo exausto, de uma mente insana e de uma alma sem tempo. Assim se sabe das coisas que são contrapostas à vontade de ser.

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sexta-feira, outubro 22, 2004

Sob estas asas





Bem me podes temer. Podes largar o teu sono por considerações desajustadas que as minhas asas também te hão-de tocar. Mais cedo ou mais tarde, pelo dia ou no correr da noite, voarei até ti e abafar-te-ei o ar. Sugar-te-ei o último fôlego de vida que ainda resista. E não me odiarás por isso. Não nesse dia. Hoje, bem sei, sou a última das tuas vontades mas, como nos outros dias, uma das tuas preocupações e o maior dos teus medos. Por ora te deixo na ilusão das coisas. Permito que corras e saltes, ames e odeies, rias e chores. Mas um dia, quando assim me apetecer, longe da mentira dos destinos, abraçar-te-ei para te devolver ao nada que eras antes.


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quarta-feira, outubro 20, 2004

de tua justiça

tu que caminhas na sombra,
que conheces a via dos desalinhados,
diz-me de tua justiça
se os meus passos são errados!
tu que ouves o silêncio,
que escutas os seus segredos,
diz-me de tua justiça
se são fundados os meus medos!
tu que és o que ninguém quer,
que foste o que ninguém quis,
diz-me de tua justiça
se a verdade é o que não se diz!
tu que vês o que ninguém sabe,
que sabes o que ninguém vê,
diz-me de tua justiça
se há justiça sem porquê!

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segunda-feira, outubro 18, 2004

Novos dias.

De dia para dia este céu está cada vez menos azul. Pintam-no de cinzento, a cor das nuvens zangadas. Uma vezes mais iradas que outras, esses bocados de algodão intocável persistem em esconder a cor que não tem fim. De vez em quando, assim o permitam os humores, lá abrem uma nesga por onde se pode espreitar o tom azulado que o céu nos emprestou atér agora. Mas logo o escondem que este não é o tempo dele.
De dia para dia esta terra está menos seca. Regam-na as nuvens que tapam o sol. Sobre ela deixam cair o líquido da vida, o sémen dos céus. Uma vezes com mais intensidade que outras, a chuva cai sobre a terra que não há muito tempo atrás se angustiava na sua secura. Agora alimenta-se, bebendo da água que jorra do alto.
De dia para dia vejo as pessoas mais tristonhas, como se alegria se tivesse ido. Não lhes agrada a cortina que encobre a atmosfera e lhes proibe a luz do sol e o azul do céu. Não os censuro. É o calor que se esvai do corpo que os deixa assim, de feições mais graves, de músculos mais tensos. Querem o sol de volta, querem o calor que os aconchega. Mas esta é altura de renovar a terra e o que mais dela cresça e se alimente.

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sexta-feira, outubro 15, 2004

Há dúvidas ?


Meus amigos, vamos por pontos:

Ponto 1: A primeira imagem que salta à vista é a de um acto sexual em público. Pornograficamente radical.
Ponto 2: Na vida tudo tem mais do que um significado e a mim apeteceu-me e ocorreu-me encontrar um para esta foto.
Ponto 3: Impõe-se uma analogia tão radical como o acto em si, porém igualmente simples e natural, que é:

Eis o que o governo nos anda a fazer,
F***r-nos enquanto nos dá música.

Nota: O principio do contraditório não se aplica aqui.Lamento, ou talvez não.

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quinta-feira, outubro 14, 2004

O estado da Nação


Não, não se trata de uma brincadeira, muito menos de um sinal de desrespeito para com um símbolo nacional. É apenas uma antevisão daquilo que nos podemos tornar num futuro próximo. Este Portugal, já de si pouco dado à magia das cores, arrisca-se a mergulhar na era do preto e branco. Cabe-nos empunhar os pincéis e redescrobirmos o gozo da pintura. Lembram-se!? Era ou não era divertido quando, ainda pequeninos, nos primeiros tempos de escola nos deleitávamos a colorir aqueles desenhos em branco? Já na altura havia quem não achasse graça a isso, também é verdade. Havia quem não acertasse com as margens ou quem, pura e simplesmente, não se quisesse sujar. Claro que ainda há uns tantos assim, porventura em maior numero até, mas isso não é impeditivo, pois não? Que se danem os emproados e as emproadas que desconhecem os milagrosos efeitos da água e do sabão, vamos mas é vestir os nossos bibes e desatar a pintar este país de cores vivas e alegres.

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quarta-feira, outubro 13, 2004

Ideias não há, comeu-as alguém!

Bloqueio! Quase extermínio! Não tenho nada na cabeça. Um vento qualquer soprou cá para dentro e varreu-me todas as ideias. Estou a vegetar. Bolas, odeio isso! O pior é que eu acho que, ao acordar, planava num monte de considerações e outras coisas que tal. Mas agora, "zaz", não há nada. Foram-se todos para a terra de ninguém. Enfim! É nestas alturas que me sinto um inutil por excelência. Acho que não sou assim tão diferente do fio condutor que lidera este mundo como pensava ser. Dane-se. Mais cedo ou mais tarde o vento há-de restituir o que tirou de mim. Há que ter fé, esperança, na máxima do seu a seu dono.

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segunda-feira, outubro 11, 2004

São os outros...

Mais do que nunca é hora, agora, de vender o corpo e alugar a alma. Mais do que nunca urge saltar para fora, sem demora, fugir das sombras e correr para longe. Mais do que nunca é altura, e bem dura, de sentir o medo e provar o receio.
Não é a razão que fala, não são estas as palavras que ela diz. É o pavor, a raiva e a ira de quem se perdeu. Não foste tu e também não fui eu. Mas foi alguém, sempre alguém, que há e existe, aqui ou ali, movido por algo que se assemelhe a demência, sim, a doença dos Homens por excelência.
Não pactuo e não creio nessas palavras mas elas ecoam pelo ar. Correm com o vento e nadam pelo mar. Só procuram ouvidos que as ouçam sem razão. Eu e tu, sabemos que não somos, mas outros há que não. Outros servem essas palavras nos seus pratos e fazem delas um alimento, um triste e sádico sustento.
Mais do que nunca é verdade, adjectivo sem piedade, que há quem morra sem viver e viva sem querer. Mas não sou eu e não és tu, que nós vivemos com prazer! São os outros, sempre os outros, os que ainda mal conhecemos e dos quais já nos esquecemos.

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quinta-feira, outubro 07, 2004

E então!?

Já não há espaço de manobra neste mundo mal reinventado. Mais a mais, as somas que se vão fazendo acabam por se transformar em subtracções, por vezes até mesmo em divisões. Não há vontade a que se aceda neste vasto Tempo. Dia após dia, navegando sobre as horas que mais parecem encurtar de minuto em minuto, este mundo perde-se do seu rumo. É o equívoco de quem não sabe ler um mapa; o desfecho lógico de quem ignora a geografia. O Norte perdeu-se, o Sul nunca foi encontrado, do Este não se quer saber e o Oeste afoga-se em si mesmo. O resto são subconsequências de muitas más interpretações. E daí?
Todos vestimos a pele de cordeiro, no fundo não há lobos. Mas há cordeiros que desaparecem, e outros que se encontram mortos, desventrados por dentes afiados. Claro que só se pode tratar de um mistério porque, já o disse, não há lobos e os cordeiros não parecem passiveis de canibalismo. Enfim! Está-se como se está. Sem rumo nem prumo. Juntámo-nos todos em caravelas infinitas e deixámos que o vento nos guiasse. Só ninguém se lembrou de que por vezes, apenas às vezes, o vento também descansa o seu sopro. Pois! E daí?
É como se diz, quando se diz, ou quando há coragem para tal, que não há fartura que não dê em miséria. Sim! Esta fartura de gente mal desgovernada, porque até no desmazelo deveriam haver regras e condutas, atrofia-se no seu degredo e afunda-se na lama criada pela sua própria saliva.
E daí?

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segunda-feira, outubro 04, 2004

Não é o sono, sou eu...

Noite escura e profunda. A luz foi-se numa quebra súbita e inesperada. Eu dou voltas e mais voltas no sofá. O sono não vem, tardio como noutras noites. Desconjuro-o por isso. É mais fácil do que admitir uma perturbação qualquer, dessas que estão tão em voga. Então levanto-me e dirigo-me para a janela. Não consigo ver nada, nem mesmo a lua. As nuvens encobrem-na, talvez a queiram roubar. E também não vejo o vento que sopra, mas sempre o ouço. Sempre percebo o seu brando silvo ecoando pela rua. Sobrevem-me um pensamento: como não ter sono numa noite assim? Talvez seja mesmo uma perturbação qualquer, mas apenas talvez!
Volto para o sofá onde me deito uma vez mais. Foi assim ontem, anteontem, e nos antes que já se foram. Sei que o sono acabará por surgir, é apenas uma questão de tempo. Até lá deixo que os mais variados pensamentos me assaltem. Uma vezes é o futebol, outras a política. Certas noites são confusos, como se censurados pela pequena porém activa e hipócrita censura que ainda vou alimentando. E aqui estou, de pensamentos deslavados, turvos e desconexos. Forçam-me a sentar-me de novo. Impelem os meus olhos a uma procura incessante, ainda que infrutífera, num frenético alerta. As mãos suam e o coração bate mais intensamente. Depois provocam um frio que me percorre a espinha. Juro ter visto algo, como uma súbita aparição, um relampejo de luz fusca em movimento tosco. O medo assalta-me. A culpa é desses pensamentos fantasmagóricos, vindos de nada e apoiados por razão nenhuma.
Engulo em seco. Ainda não há luz. Por isso arrasto os pés muito lentamente até ao quarto. Deixo uma das mãos guiar-me pela lisura da parede. Finalmente deito-me na minha cama onde procuro o aconchego da minha parceira. Ela dorme profunda e serenamente. Agarro-me a ela, abraço-a como se procurasse protecção. E assim, abraçada pela minha insana percepção, ela dorme como dormem as princesas, ignorando que me acalma o espírito e me devolve a razão. Agora sei que daqui a pouco o sono virá.

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sexta-feira, outubro 01, 2004

O estado de (des)graça!!!

Pois é. É a política outra vez, ou melhor, a face desavergonhada de um certo político que por acaso, apenas e só por acaso, nos calhou na rifa como primeiro ministro. É óbvio que escrevo de Pedro Santana Lopes que, em boa verdade se diga, nada fez para merecer um cargo que lhe foi legado por sucessão, como se isto fosse uma monarquia. Pois bem, se é verdade que o actual primeiro ministro nada fez para justificar esta meteórica ascensão, não é menos verdade que agora, de rabo bem assente na cadeira do poder, pouco ou nada tem feito para explicá-lo. Bem pelo contrário. O facto é que a sua ainda curta experiência como P.M. se tem caracterizado por simples exercícios de retórica e ainda assim cheios de erros, digamos, gramaticais. E nem vale a pena enumerá-los aqui pois estou certo que não haveria ninguém com a paciência exigida para se dar ao trabalho de os ler a todos. Mas há pelo menos um exemplo bem característico daquilo que representa o nosso primeiro ministro que eu não poderia deixar passar em claro. É que ontem, num jantar, ou numa festa, não sei bem o que era, mas sei que era do agrado de Santana Lopes, o nosso P.M. achou que tinha toda a legitimidade para exigir do povo português o estado de graça que, disse ele, todos os executivos merecem. Senhor primeiro ministro, os estados de graça alcançam-se com trabalho, com políticas económico-sociais que vão de encontro às necessidades de um povo, e não com pedidos descabidos de quem até ao momento só tem revelado uma total inaptidão face ao cargo que preenche. Mais, um estado de graça é a forma de um povo eleitor, na sua maioria, mostrar ao governo o seu contentamento pelo trabalho desenvolvido. Não acha por certo que o merece, ou acha!? Eu por mim lhe digo, não é com a sua política, onde um acessor de imagem (?) ganha cerca de 10.000 euros por mês enquanto a economia do país se vai deteriorando, que conseguirá o tão desejado estado de graça. Mais ainda, ser primeiro ministro não é um jogo, não é como ir à noite ao Casino tentar a sua sorte. É o destino dos portugueses que está em jogo. Enquanto não o entender não há moral que o assista para pedir estados de graça. Ganhe um pouco de vergonha na cara. A sério.

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