sábado, setembro 11, 2004

A velha solidão...

"Não tenho medo da morte", disse-me certa vez um velho esquelético e corroído pelo tempo. Eu nada disse. Limitei-me a ficar expectante, como se adivinhasse nova investida que não tardaria. "Só me assusta é morrer só", lamentou-se então, como se esse fosse um fim anunciado e inevitável. E eu, bem, eu mantive esse mesmo silêncio patético, incompreensivel, injustificavel. Como se lhe desse razão, como se fosse um anjo, ou um guardião do tempo, que soubesse de antemão que sim, que ele iria mesmo morrer só, como só vivera. Então o silêncio estendeu-se por toda a parte, como se eu não lhe bastasse. Abraçava-me a mim, ao velho e a essa sala estranhamente vazia, onde as janelas há muito não se abriam e as portas aguardavam entreabertas que alguém as cruzasse. Não se ouviu mais nenhuma palavra da boca desse débil homem. Apenas um pequeno adeus, dito por mim, tremulamente, como se inseguro, ecoou naquele espaço. Gostava de acreditar que esse velho também tivesse ouvido a mentira que dizia para a minha alma, em tons emudecidos, que não, que ele não morreria só, que alguém lhe estaria a segurar a mão no momento do seu último suspiro. Mas ainda assim, como poderia eu enganar quem já tanto sabia da vida? Talvez tivesse sido melhor assim. Sair sem nada dizer, deixando a esse homem a infeliz, porém acertada ideia, de que o mundo não mente, nem é frio, apenas tem outras tristezas com que se ocupar. Quanto a mim, bem sei que o velho irá morrer só. Não me assiste coragem de enfrentar essa última cruzada que é só sua e para a qual não estou preparado...

Comentários...

1 Ditos e desditos:

At 11:34 da tarde, Blogger m. escreveu...

Morte sempre assusta... é tão indecifrável, tão inaceitável...

obs.: achei q te conhecia...!!! mas já que não, de onde vc é?! sexo, idade!?!

mari!

 

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