O último dia!
Faz hoje três anos que o mundo dormia ainda um sono inocente, ignorando um violento despertar que o atiraria irremediavelmente para a crueza da realidade. Faz hoje três anos que a intolerância se preparava para tomar um lugar que nunca deixou de espreitar. Uma tomada meticulosamente estudada, sordidamente planeada até ao milímetro. Há três anos atrás, num dia mais solarengo que o de hoje, os sorrisos espalhavam-se pelo ar, como as preocupações, movidos por coisas banais, quotidianas. Não cheirava a medo, muito menos a terror. Não havia a desconfiança de que dos céus irromperia a morte como se de um evento bíblico se tratasse. As pessoas que se cruzavam diariamente, quase sempre num perfeito anonimato, diferentes em tantas coisas, ignoravam que o destino lhes reservava um fim igual. Um destino macabro, traçado pelos senhores da ignorância e intolerância, no fundo uma e a mesma coisa. Foi assim há três anos, num pacato e perfeitamente normal dia dez de setembro, que o mundo não sabia que se despedia da aparente inocência que pairava nos seus céus.Faz hoje três anos que a face do ódio religioso se preparava para saltar para as luzes da ribalta, gritando aos ouvidos do vento que só um certo deus, desprovido de corpo e alma, interessa. A vida dos homens e mulheres de todas as idades, que choram e riem, amam e sofrem, pouco ou nada interessa aos olhos fundamentalistas dessa gente acéfala. É este o dia que eu guardo na memória porque este ainda foi um dia feliz.

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