terça-feira, Junho 20, 2006

# 1

Passava horas a fio a olhar pela porta entreaberta. Quem por ali passasse não se aperceberia da sua presença. Aqueles olhos, tão negros quanto o espaço entre paredes que os cercava, confundiam-se com a penumbra que reinava para lá dessa porta. Quem era não interessa. Não tinha como interessar pois ninguém se apercebia da sua existência. Mas fosse quem fosse, olhava atentamente os movimentos de quem se cruzava em frente àquela porta, qual felino em busca de uma presa mais incauta.
Eram assim os seus dias. Fossem eles de sol ou de chuva, de calor ou de frio, aqueles olhos negros fitavam o horizonte que lhes era permitido sem que nada lhes passasse despercebido mas sempre no mais puro anonimato. Até um dia. Até ao dia. Até esse dia em que a chuva, mesmo caindo copiosamente, não lhe conseguiu esconder a silhueta da bela Eva.
Fitou-a maravilhado enquanto ela se esgueirava com bravura no meio dessa intempérie que se abatera sem quê nem porquê! Talvez embevecido pela coragem e determinação da bela Eva deixou entreabrir um pouco mais a porta que o separava, e quem sabe se guardava, do mundo louco das pessoas sem tempo. Mais não precisou para que de observador passasse a observado.
Do outro lado da rua, protegido para lá de uma janela meio embaciada, Igor pareceu reparar nessa porta que se abrira um pouco mais. Dai a pouco para lá da janela não havia senão o vazio...

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